Quando
era pequena,
e morava no interior,
eu não imaginava que sonhava tanto.
Que desejava a lua,
e vivia em castelos.
Meus sonhos não eram sonhos,
e sim a realidade que vivia.
E nesta vida em que eu acreditava
os amigos eram para sempre.
Não havia inveja.
O que era deles era meu e vice-versa.
Então existiam
pétalas especiais que nos tornavam invisíveis,
e os vestidos longos da mãe da minha melhor amiga
transportavam-nos para os bailes reais no fundo do seu quintal.
O trono era um pé de figo meio anão,
e ali deitávamos na grama.
Sonhávamos com príncipes e princesas...
Mas
a vida passou
e por algum defeito da cronicidade
passamos pelo terrível portal do tempo.
Não sei quando foi exatamente.
Mas creio que foi quando nossas bonecas pararam de falar,
as comidinhas viraram as folhas picadas que eram,
as bermudas herdadas do irmão transformaram-se em calças
jeans
ou saias...
As conversas mudaram de tom.
Passaram do faz-de-conta aos mistérios da vida:
o porquê das portas do quarto dos pais trancarem-se à noite,
ou a causa da filha da vizinha casar tão rápido.
Houve decepções com o mundo.
Descobertas de peso,
a tríade que corrompe o ser humano e dirige seus passos:
dinheiro, sexo e poder.
Que se mostraram em sua mais rude e cruel essência,
pois para quem sai do paraíso
não há uma preparação,
a verdade dói...
Então
me fechei para sonhos.
De alguma forma tive que me adaptar, e nem sei como o fiz.
Meu príncipe se fora,
minha lua roubada,
nossas danças nos bailes reais já não existiam,
e diante dos problemas de nada mais adiantava tornar-se invisível.
Sem os pais para decidir o imediato,
devíamos criar nossa trilha e por ela caminhar...
Seguir o faro intuitivo e tomar a decisão correta.
E
agora
anos (mais do que desejaria) mais tarde...
Percebo a necessidade do país dos sonhos,
do caminhar pela vida de criança.
Precisamos criar alternatrilhas que amenizem as dores da rudeza do
presente...
É quando o ser adulto no meio do trabalho,
do estresse,
almeja a tal casinha no meio do mato,
ao pé da montanha,
na beira da paisagem paradisíaca.
Largar
tudo e fazer o que sonha
numa chácara ou cidadezinha do interior,
onde
ainda se senta na calçada no fim da tarde...
e se conhece o nome dos seus dez vizinhos à direita e à
esquerda.
Como dá saudade daquele paraíso que era o interior!
E
aí a gente sabe, com uma dorzinha no fundo do coração,
Que
a segurança da inexistência de ladrão, dos amigos
verdadeiros, do poder abrir coração e alma, já
não mais existe...
Mas
um dia a gente vê um amigo da infância, muitos pensamentos
voltam à mente e sensações boas daquele tempo...
E
pensamos: ainda que não sejam mais reais, podem voltar à
lembrança.
Porque
os amigos trazem em si esse poder de ressuscitar momentos e recordações
felizes dos tempos bons...
É
isso que vivencio agora, quando os reencontro,
São
esses pensamentos maravilhosos que me vêm à mente...
amigos
de infância, que continuam amigos no presente:
extensão
do paraíso que vivemos um dia...
Sublime
e inestimável dom...
Celebremos
e brindemos a isto:
a
amizade que resiste ao tempo, ao espaço e à distância!!!
Autoria
de: Renata G. Guimarães