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Alegria
de pobre, antes do aumento abusivo
do combustível e do valor do pedágio,
era aos domingos almoçar na casa do compadre, em outra cidade.
Com o aumento dos preços, essas visitas foram rareando,
mas ainda era costume ir comer macarronada com frango,
pelo menos uma vez a cada dois meses.
Aquele
domingo foi um desses...
Minha mãe, viúva e com três filhos, se arriscando
a pegar estrada,
só para ter a sensação de um programa legal.
Para nós, espremidos no banco traseiro, com malas, brinquedos...
era tudo alegria, pois ninguém nos questionava quanto a querer
ou não ir.
Tinha que ir e ainda ficar feliz.
O
carro, uma beleza, um Opala 81,
que chamávamos carinhosamente de Titanic,
ou seja: chique, uma barca de enorme e sempre ameaçando afundar!
A funilaria estava tão retocada que a gente já nem sabia
mais qual era a cor original.
A
janela da frente não abria, e era presa por uma chave de fenda;
às vezes, quando algum desavisado a tirava,
tinha de pescar o vidro que caía para dentro da porta.
A gente ria até não poder mais da cara de sem-graça
do infeliz...
Maravilhoso Titanic, dá saudade.
Até meus primos, que tinham um carrão modernoso, gostavam
dele,
porque seu pai não os deixava comer nada no carro novo.
Já no nosso não tinha esse problema, porque era tão
bagunçado e sujo,
que a gente podia comer à vontade.
Às vezes até achávamos bolacha velha no estofado,
que estava cheio de furos - e era disputada a tapa por todos nós,
tinha que dividir!
Minha mãe resolvia isso jogando a manta da minha irmã caçula
por cima.
Mas ela tinha o maior orgulho do carrão, afinal,
fazia anos que ela não pagava mais IPVA, não precisava gastar
com seguro;
ninguém ia ser doido de roubar um traste daqueles.
Quantas vezes ele "dormiu" na rua com a porta aberta.
Uma vez até com a chave no banco da frente.
Ah, Titanic... Chique no Úrtimo!
Alguns
poucos quilômetros depois e muitas paradas
para meus irmãos vomitarem e fazerem xixi na beira da estrada,
surge o primeiro pedágio.
Mamãe, expert no assunto de encontrar atalho para economizar uns
trocos,
logo foi se embrenhando por um caminho de terra, muita terra e mato.
Meu irmão do meio, medroso, começa a rezar:
- Oh, Jesus, que não tenha nenhuma cobra nesta estrada...
e se tiver, que ela não enxergue a gente!
Depois
do trecho de mato e terra,
para valer o esforço ainda era preciso atravessar um condomínio
de bacana.
Dependendo do porteiro, mamãe conseguia passar reto, nem precisava
parar.
Esse dia foi um daqueles nos quais ela quase brigava com o porteiro,
pois ele fez sinal para ela parar e queria saber onde ia.
Aí, era uma enrolação só,
tipo:
- Olha, mocinho, eu preciso passar por aqui, porque estou perdida,
e quero chegar ao outro lado da estrada. Além do mais, o que uma
mulher indefesa,
com três crianças, faria de prejudicial num condomínio
deste?
E
então, com muita lábia, ela conseguia convencer o mocinho
de que nem ele corria risco de perder seu emprego nem ela era risco para
os residentes.
E lá íamos nós...
Houve
uma vez em que ela estava com pressa e resolveu passar pelo pedágio,
mas tinha esquecido a carteira em casa, não tinha grana para pagar
o pedágio.
Ainda bem que o cobrador ficou com pena da gente e pagou para nós.
Ela pegou o endereço dele, mas acho que está devendo até
hoje.
São as correrias da vida!!!!
Eu
nunca soube ao certo, mas sempre desconfiei
de que o que ela economizava no pedágio era o mesmo que gastava
de gasolina,
rodando a mais para evitá-lo. Conclusão: dava tudo na mesma,
mas ela se sentia campeã por não dar mais dinheiro ao governo.
As estradas ainda não haviam sido privatizadas!!!
Era
uma viagem relativamente curta, não dava nem duas horas,
mas para nós era uma eternidade.
Então tentávamos inventar mil jogos no carro para fazer
o tempo passar mais depressa.
Aí, contávamos quantos caminhões respondiam aos nossos
tchaus
quando passávamos ao lado e quantos buzinavam para a bonitona da
nossa mãe.
Ela ficava brava, mas nós nos divertíamos.
Quando
ela estava na TPM, então, a viagem era uma tortura a mais,
porque invariavelmente ouvíamos sermões sobre o quanto nós
éramos briguentos,
o quanto devíamos nos amar, o quanto a vida era difícil.
Difícil era para nós agüentá-la nesses dias,
mas logo passava e era tudo alegria de novo!!!
-
E aí, mãe? Falta muito ainda para chegar? Minha irmã
mais nova pergunta.
Ao
que mamãe atira em seguida:
-
O próximo que fizer essa pergunta de novo eu largo na beira da
estrada!!!
Quem
ia ser louco de arriscar? Ela sempre cumpria o que prometia.
Nós éramos bagunceiros, mas não loucos!!!
Mais
alguns quilômetros à frente e mais uma parada
na qual meus irmãos levaram umas chineladas, e muito sossego depois
ela disse:
-
Que bom, estamos chegando!!!!
Uau,
melhor para nós... Rever tio Daniel, tia Claúdia, os primos
André e Érica,
enfim, a turma toda. Mais um pouquinho e estamos chegando.
-
Olha a placa do bairro deles...
-
Olha o bairro!
-
Olha a rua...
-
Oba! Olha a casa.
Desce todo mundo, que bom, já estava na hora!
Todos com sede e querendo fazer xixi de novo...
Cadê o frango da tia?... Legal, toca a campainha, mas que silêncio,
cadê todo mundo?
Dez
minutos depois e nada, corre para o orelhão, liga para eles...
Onde
estão?
Não
é possível!! Eles foram para a nossa casa, com frango,
estão esperando a gente para comer macarronada!!!
Autoria
de: Renata G. Guimarães - 16/08/02
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