Despertar da vida - Desencontros

Desencontros


 

 

Era um amor muito lindo o que os dois tinham. Algo que jamais poderíamos duvidar a veracidade, nós simples mortais que temos que pagar contas, lavar roupas, criar filhos. Eles se davam mais do que bem, eram tão unidos, perfeitos em suas vidas, hiper funcionais em seu empregos, bem sucedidos em suas carreiras, lindos e saudáveis: jovens, magros, altos, parecendo modelos de propaganda. Prova disso é que sempre que entravam num ambiente, todos olhavam para eles com admiração. Dava-se a impressão que este amor estava prometido nas estrelas, de tão belo o que tinham e nutriam.
Algo incompreensível, esta separação. Até o momento não se sabia o que os havia separado, dizia-se que nem tinha caso paralelo, não houve mesmo adultério, nem briga, nem desentendimentos. Por que então se separaram? O que aconteceu? Ninguém soube tamanha descrição que sempre os cercava. Ele parece ter se mudado para a Europa e ela continua no mesmo emprego, talvez no mesmo endereço. Eu só tinha certeza que suas vidas jamais seriam as mesmas, como as nossas ao ver que até esse amor de conto de fadas, acabara como tantos outros!
E quase sem imaginar foi que eu a encontrei um dia no supermercado proximo à sua casa. Ela com sua elegância habitual, vinda de berço, abaixou-se para me beijar e demonstrou genuína expressão de saudade, que foi o que me fez aceitar tomar café em seu apartamento.Tudo como antes, muita classe, parecendo tirado de revista de decoração. Eu com vergonha me lembrava de minha sala cheia de marcas de pés de crianças na parede e manchas de copos na mesa.
Eu não sabia direito o que conversar, ela aparentemente bem, falava coisas amenas. Fotos deles ainda sobre o piano, como se nada tivesse acontecido ou na expectativa do regresso. Pouco antes de me despedir ela disse que tinha algo para me mostrar e entregou-me uma carta, muito amarrotada e manchada, talvez lágrimas...
E com um susto vi que aquele papel era o documento que selava sua separação...




Caríssima...

Sei que o que temos é intenso e enorme. Durante muito tempo senti que é maior do que qualquer um ao nosso redor. E fica esse peso sobre meus ombros de ser a todo momento perfeito. E o amor que lhe tenho é tão forte e intenso que me sufoca, não posso falhar, não posso errar, não posso decepcionar você...

Então, sendo humano, sinto que virtudes e defeitos lutam e adoecem o amor. Desejos intensos, arte e vida, nenhum de nós é ralo, somos intensos, somos criativos e cada um `a sua maneira extremamente capaz e inteligente.
Então tento entender esse amor, que precisa, anseia, sublima, espera e crê... beirando muitas vezes o insano...
sei que falta humildade, sei que falta entrega, sei que falta renúncia, ainda há um digladiar de egos, de artistas querendo fazer suas próprias e individuais performances.....
Como saber domar esses dois monstros para que convivam pacificamente, como fazer 2 narcisos viverem num só vaso?
Alguém terá que ceder, alguém terá que ouvir, alguém terá que seguir após o outro, quem está disposto?
Me vêem várias cenas à mente... E a mais interessante é a de 2 animais acorrentados juntos, querendo ir para direções diferentes... (andarão 2 juntos se não estiverem de acordo?).
O que muito me dói, é que desde o começo eu sempre achei que valia a pena, eu sempre acreditei que poderia dar certo....
(amor assim não se acha por acaso...não nasce sempre, é coisa forte, dói, mas se vencer no fim, vira romance, vira
História...). Depende da sabedoria de cada um em conseguir administrar sem dor, sem ferimento...pena que agora, quem já não agüenta mais sou eu.
Eu só queria dar a volta ao redor de nós mesmos, ter a certeza que chegou ao fim e que morreu de verdade e para sempre..
para assim poder ser feliz de vez, com alguém que simplesmente não exija nada de mim além do que sou capaz de ser e dar.
Talvez você não entenda nada disso, por que em verdade nunca exigiu nada de mim, mas é assim que me sinto ao seu lado:
tenho que ser melhor do que sou capaz.
Não quero que haja fantasmas, que não tenha enrosco, nem saudade... Queria mesmo gastar tudo que sinto por você e ver chegar o fim...para não haver prisão, nem correntes, de nenhum tipo. E ao pensar em você e em nós, só curtir talvez um sorriso de alegria de algo bom que existiu na vida...
Ouvi dizer que devemos gastar o amor. Usufruindo até o fim. Enfrentar os bons e os maus momentos, passar por tudo que tiver que passar, não se economizar. Sentir todos os sabores que o amor tem, desde o adocicado do início até o amargo do fim, mas não sair da história na metade. Amores precisam dar a volta ao redor de si mesmo, fechando o próprio ciclo. Isso é que libera a gente para ser feliz de novo. É o que desejo para mim, ser feliz de novo... é o que desejo para você também: ser feliz!


E assim terminava esta carta aparentemente sem sentido, mas que eu intimamente entendia cada palavra. O amor dele não resistiu tamanha pressão. Mas e o amor dela? Acho que nunca percebeu a gaiola em que o colocara!

Despedi-me com um forte abraço, prometendo voltar mais vezes. Internamente feliz por ter um amor tão óbvio e comum, tão igual à tantos outros que caminham por aí na vida...

 

 

 

 

Renata G. Guimarães

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