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Abrindo a porta que se encontrava deliberadamente fechada,
eu, já com mau
humor, previa o motivo para tal: esconder a bagunça!
Nesses momentos eu sempre me lembro de um texto na Bíblia
referente à
destruição do templo em Jerusalém:
"...não ficou pedra sobre pedra...".
E a bagunça de um quarto de adolescente, como bem
sabe quem tem um, é mais
ou menos isto: um campo de batalha, com resíduos,
restos, entulhos e montes espalhados por todos os lados!
Entrei já com a temperatura do humor aumentando,
pensando nas mil formas de castigos que iria aplicar, com requintes e prazer de
torturador oriental.
Abaixando-me para pegar peças de roupas, jogadas
no típico estilo "POF"(POF= tirar e pof no chão!), imaginando o olhar de
escárnio que cada peça me lançava: camisetas... calças... meias... shorts...
jaqueta... dizendo: "Não foi você que disse que nos deixaria aqui até
mofarmos, que prometeu não vir nos arrumar???"
Para aumentar minha raiva, invariavelmente todas elas estavam
do lado avesso!!!
E assim, entre abaixar e levantar, com indignação
cada vez maior, comecei a perceber em cada objeto jogado um pouco de sua personalidade, a sentir
o cheiro de sua presença, de sua passagem por ali... Li frases escritas em papéis
amassados, para ver se iam para o lixo ou não (pois até os papéis estavam
do lado do cesto e não dentro!).
E, lendo aqui e ali, percebi suas emoções...
Frases de sonhos em construção, de dúvidas
deixando transparecer temores, solidão, medo do mundo,
das pessoas, receios de crescer e ser aquilo que não quer... questionamentos vitais...
E a raiva foi se diluindo, ao mesmo tempo que me invadia
um sentimento profundo de empatia, um perfume que me fez voltar ao tempo, quando me
vi como ela, tentando aprender a ser gente... e gente boa, com princípios e dignidade.
Percebi, quase chorando, que o quarto reflete seu mundo
interior, seus sentimentos e pensamentos mais íntimos, senti o quão confusa
ela está. E que eu, um dia, tive um quarto assim, que minha adolescência foi tão difícil
quanto a dela. Talvez até mais fácil, porque
há 20 anos não enfrentei o estresse, a maldade das pessoas,
as cobranças atuais. Havia uma certa inocência, éramos tão ingênuos
e ignorantes que hoje ouvimos, boquiabertos e pasmos, frases ditas por "crianças" de 11 anos
que só iríamos entender por volta dos 18!
Olho para minha própria vida e vejo que meu quarto
continua tão confuso quanto o dela,
apenas um pouco mais organizado. Por um momento, pareço
até ouvir minha mãe brigando comigo, insistindo para que eu arrume tudo, para só
depois poder ir à casa de minha melhor amiga... Vejo que ela é como eu e eu fui como ela
é, portanto, somos iguais.
Sinto-me como um recheio de gerações. Minha
filha é o que fui, eu estou sendo o que minha mãe foi... E a situação
nos mostra que não somos diferentes...
Seguro as lágrimas, porque logo ela volta e quero
que entenda que me deu um presente alegre e não triste. Que me permitiu essas
duas viagens agradáveis: um pouco para dentro do mundinho dela e muito mais para dentro
de mim.
Fazendo-me sentir e ver tantas coisas boas que tenho e o
privilégio que é ter uma filha para poder cuidar e sentir a vida se
renovando...
novamente... outra vez... Nessa minha extensão tão maravilhosa... que é
minha filha adolescente!
Renata G. Guimarães,
(para minha filha Sarah)
27/03/03
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